
Risos antecedem a história — porque até no inusitado é possível rir de si mesma.
Entre os descartes da faxina, uma pequena caixa se perdeu.
Dentro dela, lembranças simples: uma foto, um bilhete escrito com amor,
tesouros que, aos olhos apressados, pareciam só mais um objeto qualquer.
O lixo não foi recolhido.
Mãos alheias mexeram no que não lhes pertencia.
A caixa, bonita, chamou atenção de uma vizinha curiosa.
E antes que fosse devolvida, virou assunto de conversa, ruído de esquina,
um reflexo claro daquilo que o mundo tantas vezes faz:
mexer no que não lhe compete.
Mas no fim, a caixa voltou.
Veio pelas mãos da mãe, devolvida com um sorriso.
E na travessia dessa volta, o recado foi dado:
ninguém rouba o que é verdadeiro,
ninguém apaga o que foi escrito com amor.
Não houve mágoa da filha — porque o que se leva e o que se deixa
não está em caixas nem bilhetes, mas no coração.
Não houve rancor da vizinha — porque cada xereta aprende, cedo ou tarde,
que mexer no lixo alheio é se expor à própria sombra.
E a delicadeza, mesmo firme, é sempre o melhor tom.
No Dia da Caixa Devolvida, ficou selado o insight:
até o que o mundo chama de lixo pode voltar como espelho.
E a verdade é essa: o que é seu, por amor, sempre volta.

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