
Houve um tempo em que eu quis ir.
Houve um tempo em que tudo em mim gritava por mudança.
Mas ir sozinha era como carregar nos ombros o peso de abandonar minha família.
E isso não fazia sentido para quem, como eu, sempre tentou ser abrigo.
Na pandemia, quando o mundo parou, meu coração acelerou.
Vi uma possibilidade. Portugal. Um recomeço.
Tínhamos os passaportes. Tínhamos a chance.
Mas ele não quis ir. Queria que eu fosse sozinha.
Só que não…
Ir sem minhas filhas, sem meu núcleo, sem minha raiz,
teria sido o mesmo que me perder de mim de vez.
Eu permaneci.
Não por covardia, mas por amor.
Fiz o que estava ao meu alcance para manter a família unida.
E, ainda que hoje eu saiba que a escolha estava sempre em minhas mãos,
a verdade é que eu precisava tentar até o fim.
E eu tentei.
Tentei como mãe.
Tentei como companheira.
Tentei como ser humano comprometido com o amor.
Mas chegou o momento em que continuar seria me abandonar.
E então, mesmo em pedaços, eu fui.
Fui destruída, mas em paz.
Porque não me escondi, nem fugi da responsabilidade.
Fiz a travessia de quem escolheu viver com dignidade.
Agora, reconstruo minha história com integridade.
Com maturidade.
Com fé.
Não carrego culpa.
Carrego cicatrizes.
E através delas, a luz passa.
Porque foi ali, naquele momento de ruptura,
que a estrela que sempre fui começou a brilhar mais forte.

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