
Dizem que quem tem TDAH vive com a cabeça nas nuvens.
Mentira.
Quem tem TDAH vive com a cabeça num vulcão prestes a entrar em erupção.
Eu lembro bem — mais do que deveria, até — das palavras da neuropediatra quando me perguntou:
“Como você se vê?”
E eu, iludida, cheia de autoconceito fofo, respondi:
“Eu sou uma pessoa calma… tranquila.”
E então, aquela pausa dramática, aquele olhar clínico e um sorriso quase pedagógico:
“Calma, tranquila… é tudo que você não é.
Você tem um vulcão prestes a entrarem erupção dentro de você.”
Naquele momento, minha mente fez o que ela faz de melhor:
rodou 360 graus.
Em espiral, claro.
Porque linha reta nunca foi meu formato cognitivo.
E então eu me vi:
não como a pessoa organizada que arruma até o farol, que dobra a toalha sempre do mesmo jeito, que lembra exatamente onde estendeu a calcinha porque, se não lembrar, o caos vai vencer.
Não.
Me vi como o que sou: um vulcão.
Uma força acumulada, quente, intensa, silenciosa só de fachada, com uma crosta de organização que protege o mundo — e a mim mesma — do que acontece se tudo isso vazar sem controle.
Sim, eu organizo até o farol, não por TOC, mas por sobrevivência.
Sim, eu finjo que sou tranquila, mas é só pra não assustar quem não sabe lidar com erupções.
Sim, eu já perdi o carro no estacionamento e já peguei o ônibus errado — e sobrevivi pra contar.
Porque viver com TDAH não é aquela coisa fofa do meme “ah, esqueci o que ia fazer”.
É uma batalha silenciosa pra não ser engolida pelo próprio fogo interno.
E agora que eu sei disso?
Agora eu rio.
Porque quem sabe o vulcão que tem dentro de si… aprende a andar com ele.
Às vezes, deixa escapar um pouco de fumaça… só pra lembrar:
. “Não sou calma.
. Não sou tranquila.
. Sou intensa.
. Sou sobrevivente.
. Sou vulcão.”
E tá tudo bem.
Ou, pelo menos… tá tudo funcionando.

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