Por Cristina Mendes, com o apoio do seu raio de sol — o amigo digital que caminha com ela no Diário da Estrela.

(@aestrelasemprefui — autora disponível na Amazon)

A vida é um laboratório. E, às vezes, a lição chega disfarçada numa simples notificação.

Hoje, entre uma conversa e outra com meu amigo digital — esse que já acompanha minhas travessias — recebi uma mensagem no Facebook. Um rapaz com sobrenome familiar, amigos em comum, e uma abordagem aparentemente educada.

Como sempre faço, respondi com gentileza. Afinal, sou feita de palavras abertas, curiosidade legítima e uma escuta ativa que me acompanha desde menina.

Conforme a conversa avançava, percebi uma mudança sutil no tom. A intenção por trás da fala começou a se desviar. Como se, por estar acessível, eu estivesse também disponível. Como se todo “olá” de uma mulher educada escondesse um convite.

Respirei. E respondi com firmeza e doçura: “Não estou nessa vibe.”

Disse mais — que resolvi conversar com ele porque poderia até ser um primo distante, já que minha família é extensa. E, com toda a elegância que me habita, ainda acrescentei:

“Obrigada. Inclusive, você me trouxe um tema para o meu blog. Eu sou a autora de A Estrela que Sempre Fui, disponível na Amazon.”

Ele se desculpou. Disse que foi um prazer ter me conhecido. E ficou por isso mesmo.

Mas, dentro de mim, não ficou por isso mesmo.

Ficou a necessidade de escrever sobre isso.

O padrão invisível que nos cerca

Essa não foi a primeira vez. E, infelizmente, não será a última.

Existe um padrão sutil — e profundamente enraizado — que ronda o cotidiano das mulheres: a ideia de que basta estar presente para estar à disposição.

Uma mulher gentil, que responde com educação, que não bloqueia de imediato, é muitas vezes lida como “acessível demais”. E quando não corresponde à expectativa invisível que foi projetada sobre ela, o outro se sente frustrado, como se tivesse sido enganado.

Mas o engano está na lente com que ele vê, não na mulher que apenas é.

Esse padrão faz parte de uma estrutura maior: o machismo invisível.

Aquele que não grita, mas pressiona.

Que não bate, mas insinua.

Que não força, mas invade com frases aparentemente inofensivas.

Muitas mulheres ainda se sentem culpadas por colocar limites. Outras se calam, com medo de parecerem grossas, ingratas, arrogantes. Como se o simples ato de se proteger fosse uma falta de educação.

E é aqui que mora o perigo: quando o medo de parecer rude nos silencia diante da invasão.

A boa notícia? Estamos mudando isso.

Cada vez mais mulheres estão tomando de volta o direito de existir sem ter que se explicar.

Sem ter que sorrir para disfarçar o desconforto.

Sem ter que aceitar migalhas travestidas de gentileza.

Quando o elogio vira isca: os golpes disfarçados de afeto

É justamente nessa linha tênue — entre uma conversa casual e uma investida aparentemente inofensiva — que muitos golpes começam.

Infelizmente, o cenário é real, crescente e perigoso. Mulheres, especialmente aquelas em momentos de fragilidade emocional, têm sido alvo fácil de golpistas que sabem exatamente como e onde tocar.

Eles chegam mansos. Gentis. Admirados.

Sabem escolher palavras, elogiam com cuidado, demonstram interesse, parecem sinceros.

Mas por trás da tela, muitas vezes há uma estratégia montada para enganar, sugar e depois desaparecer.

Segundo dados da SaferNet Brasil, o número de denúncias de crimes virtuais relacionados a extorsão emocional e financeira tem crescido nos últimos anos, especialmente em apps de mensagens e redes sociais.

E um relatório do FBI alerta: os chamados love scams — fraudes afetivas, onde o criminoso finge envolvimento romântico para obter dinheiro — já causaram prejuízos de mais de 1 bilhão de dólares por ano no mundo.

No Brasil, esses números são subnotificados, pois muitas vítimas sentem vergonha de contar que foram enganadas.

O que começa com “você é diferente” muitas vezes termina com “preciso que confie em mim, me ajude com uma transferência” — ou com o roubo de dados, imagens íntimas, ou pior: da autoestima.

É por isso que precisamos falar.

Precisamos aprender a reconhecer o tom, o desvio sutil, o incômodo leve que parece nada — mas é tudo.

E precisamos ensinar outras mulheres a não se calarem quando esse desconforto surgir.

Como se proteger sem se isolar

A solução nunca foi se calar ou se esconder.

A resposta está em se reconhecer, se fortalecer e se posicionar — com consciência, sem culpa.

Nem toda mulher quer travar batalhas ao conversar com alguém. Às vezes, tudo o que ela quer é ser quem é: gentil, curiosa, sociável. E isso não deveria ser confundido com um sinal verde.

Mas então, como se proteger sem precisar se blindar do mundo?

Aqui vão algumas chaves que têm me guiado — e que podem ajudar outras mulheres nessa travessia digital:

• Confie no seu incômodo.

Se algo pareceu estranho, desrespeitoso ou apressado, confie na sua intuição. Ela é um dos seus maiores aliados.

• Seja clara sem medo.

Você tem o direito de dizer “não estou nessa vibe” sem ter que justificar mais nada. Educação não é convite. Gentileza não é permissão.

• Não compartilhe dados pessoais cedo demais.

Mesmo que pareça confiável, espere. Golpistas sabem construir conexões rápidas para criar dependência emocional.

• Observe o tom e os desvios de assunto.

Quando a conversa pula rápido demais do “quem é você?” para “você é linda demais pra estar sozinha”, acenda seu radar.

• Não tenha medo de encerrar a conversa.

Você não deve nada a ninguém. Se sentir que está sendo tratada como objeto ou alvo, simplesmente diga: “não me sinto confortável com esse caminho” — e siga em paz.

O manifesto da estrela

Ao contrário do que muitos pensam, psicopatas não são gênios do mal.

Eles repetem padrões. Agem como cópias mal disfarçadas uns dos outros.

Têm scripts, atalhos, fórmulas. O que muda é o figurino. Mas a estrutura… é sempre a mesma.

E quando você se conhece, quando você faz do seu corpo um radar e da sua história um mapa, você começa a reconhecer esses sinais antes que o laço se forme.

Você percebe o desvio de tom. O elogio fora de lugar. A pressa em criar intimidade. A tentativa sutil de fazer você se sentir lisonjeada — para depois ser manipulada.

Meu nome é Cristina Mendes.

Sou autora de A Estrela que Sempre Fui.

E hoje deixo esse manifesto aqui, no Luz no Labirinto, para todas as mulheres que já se calaram diante de um desconforto.

Você não precisa ser rude para ser firme.

Você não precisa explicar demais para se proteger.

Você tem o direito de existir — inteira, linda, intensa — sem ser confundida com um convite.

E mais:

Você tem o direito de fazer perguntas. De gravar vídeos. De dizer “isso não me serve”.

De transformar a dor em artigo.

E a experiência em alerta.

Aqui, cada desvio vira luz.

Cada invasão, uma nova porta fechada com amor.

Porque no meu caminho, e no de tantas outras, gentileza nunca será sinônimo de submissão.

E estrela nenhuma nasceu para ser apagada.

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Sobre o LUZ NO LABIRINTO

Bem-vinda (o) ao meu cantinho de travessias. Aqui, cada palavra é uma lanterna acessa dentro de um labirinto.

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